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A “Palavra de Deus” criadora de realidades e geradora de vida

A “Palavra de Deus” criadora de realidades e geradora de vida

Estimados paroquianos da paróquia Santíssima Trindade, estamos no mês de setembro, mês dedicado à Bíblia em toda a Igreja do Brasil (e algumas da América Latina). Esse mês foi escolhido pelo fato de que, no dia 30/09, recordamos a memória de São Jerônimo, o qual, a pedido do Papa Dâmaso em 382 d.C., fez a tradução da Bíblia para o latim, chamada de Vulgata, uma vez que circulavam diversas traduções em latim conhecidas como Vetus Latina (“Velha Latina”). Muitas eram incompletas, imprecisas e com erros de cópia.

Como visto, tendo como referencial São Jerônimo, a Igreja do Brasil, a partir de uma iniciativa que teve início em 1971, na Arquidiocese de Belo Horizonte, assume como prática recordar, durante um mês inteiro, a Palavra de Deus, tal como acontece com outros temas: Mês vocacional, mês mariano, mês missionário, com o propósito de recuperar a centralidade da Bíblia em nossas vidas, pessoal, familiar e comunitária, favorecendo uma compreensão melhor de nossa parte deste Livro que deve moldar o nosso ser cristão. Nesse ano de 2026, o livro a ser estudado é o Livro do Profeta Daniel, com o tema: “Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14). Tendo como objetivo promover a reflexão sobre a esperança, a resistência e a fidelidade a Deus em tempos de crise.

Recordamos nesse mês, portanto, que a leitura da Bíblia, tanto de forma pessoal quanto familiar e comunitária, é um pilar fundamental para a espiritualidade cristã, servindo não apenas como um conglomerado de leis, preceitos, regras, histórias de pessoas que viveram em um passado muito distante (haja vista que temos textos com mais de 3 mil anos escritos), mas como a “Palavra de Deus” criadora de realidades e geradora de vida, pois, assim como ela foi para quem escreveu e para quem a leu antes de nós, deve ser para cada um de nós: fonte de vida, conduzindo e iluminando a realidade, como é descrito no Salmo 119,105: “A Palavra de Deus é lâmpada para os pés e luz para o caminho”, auxiliando na solidez da fé e na vivência desta mesma fé.

Quando trazemos à nossa memória a importância da prática individual, familiar e comunitária, fazemo-lo conscientes de que a leitura da Palavra de Deus, realizada em qualquer uma dessas modalidades, permite que se desenvolva uma intimidade profunda com o sagrado, encontrando respostas e direções para os desafios que cada um de nós temos no cotidiano de nossas vidas. Veja que a Igreja, consciente de tal riqueza, apresenta-nos, desde tempos remotos do Cristianismo, como proposta para facilitar essa proximidade pessoal, familiar e comunitária, o Método da Lectio Divina/Leitura Orante da Bíblia, o qual é um caminho eficaz para essa experiência, que consiste em cinco passos:

O primeiro passo é ler (fazer uma leitura literal, mas não “literalista/fundamentalista”, tendo presente a seguinte pergunta: o que o texto diz); o segundo passo é a meditação (nesse momento eu trago o texto para a minha vida, fazendo a seguinte pergunta: o que o texto diz para mim); o terceiro passo é rezar (aqui eu vou me dirigir a Deus com uma oração, podendo ser uma prece, uma súplica ou um agradecimento, com a seguinte pergunta: o que o texto me faz dizer a Deus); o quarto passo é a contemplação (contemplar é ver o mundo como Deus vê, assim a pergunta que faço é: como devo olhar a realidade a partir do texto); e o quinto passo é o agir (toda a leitura da Bíblia deve nos comprometer, deste modo a pergunta a ser feita é: o que preciso fazer de concreto).

Como enfatizado acima, a leitura da Bíblia deve nos questionar, provocando em nós um desejo de transformação e conversão, não só pessoal, mas comunitário, pois não é possível um contato, seja por meio da leitura espiritual ou com o foco no estudo dela, sem que se viva um processo permanente de conversão, conformando a nossa vida à de Jesus, com essa pergunta norteadora: “O que Jesus faria nessa situação?”. Por isso também a Igreja incentiva e promove o contato com a Palavra de Deus por meio dos Grupos Bíblicos em Família, em nossa Arquidiocese conhecidos com a sigla (GBF).

O incentivo para a participação nesses grupos, com o intuito de rezar e refletir a Palavra de Deus, nasce da compreensão de que, diante dos desafios da cultura urbana moderna, marcada pelo individualismo e hoje principalmente pela dependência tecnológica, a leitura comunitária torna-se essencial para restaurar laços afetivos e de solidariedade familiar e entre os vizinhos. A Igreja, portanto, tem consciência de que estes grupos representam a originalidade do cristianismo nascente, os quais se reuniam nas casas, como nos descrevem as cartas de Paulo e os Atos dos Apóstolos. Hoje o compreendemos como: “Igreja na base”, em que vizinhos e familiares se reúnem para rezar e refletir sobre a realidade à luz da Palavra. O GBF ajuda a amadurecer a fé, desperta lideranças para o serviço do Reino e promove a prática concreta do amor e da solidariedade. Se você ainda não faz parte do GBF, por meio da leitura deste texto, espero que seja tocado para tal realidade.

Assim, concluímos dizendo que, tanto na leitura pessoal quanto na de grupo, a premissa fundamental é que a vida deve ser interpretada por meio da Bíblia. A leitura não deve ser meramente intelectual; deve “esquentar o coração” e levar à ação (hospitalidade, partilha e serviço aos necessitados), pois é na comunhão e na prática da justiça que os olhos se abrem para reconhecer verdadeiramente a presença de Deus, tornando-se testemunho vivo para o mundo.

Fr. Dr. Vilson José da Silva.