Antes eu te conhecia só por ouvir falar, mas agora os meus olhos te veem. A Festa da Santíssima Trindade é assim: chega primeiro como um rumor antigo que atravessa gerações e, em seguida, toma vivamente o pátio da Igreja da Santíssima Trindade e a Praça Santos Dumont, na Travessa São Lourenço de Brindes, transformando o bairro em um espaço de memória, fé e pertencimento.
O pátio torna-se um cenáculo ao ar livre, onde a comunidade se reúne para partilhar não só comida, mas vida. Neste ano de 2026, a 168ª Festa da Santíssima Trindade começa na sexta-feira, 22 de maio, e se estende por dez dias até domingo, 31 de maio.
Entre mesas, vozes e bandeiras do Divino Espírito Santo, a comunidade se reconhece e se encontra. Para quem vive aqui (de acordo com dados do Censo 2022, a Trindade é o bairro com a quinta maior população residente em Florianópolis, com 22.250 habitantes), a festa é mais do que um reencontro anual com as raízes do lugar: é a continuidade de uma história sustentada, desde 1858, pela fé, pela luta e pelo cotidiano das comunidades da Paróquia da Santíssima Trindade.
A Festa da Santíssima Trindade é serviço. É entrega. É missão. É o lugar onde a fé se faz concreta. É, sobretudo, uma prova de que tradições só sobrevivem quando há gente disposta a mantê-las vivas — como os freis capuchinhos desde 1962, como cada voluntário que monta uma barraca, serve um almoço ou ajuda a carregar uma bandeira e como o casal festeiro em 2026, Nayara de Lima Mendes e Paulo Sérgio Valdir Martins, que não mede esforços e cumpre uma longa jornada convidando a todos a participarem desta caminhada de fé, comunhão e cultura.
“Sintam-se donos desta festa”, declara Nayara a cada celebração.
O sopro açoriano que não se apaga
A Festa da Santíssima Trindade é a sarça que arde há mais de 160 anos e não se consome. Os primeiros registros da festa datam de 1857, quando o jornal “O Argos da Provincia de Santa Catharina”, escrito por José Joaquim Lopes, em 23 de julho de 1857, na edição nº 163, na página 2, cita a festança matutina no domingo da Trindade com o imperador do Divino e seu manto, com leilões e muito cavalo pastando no adro da Igreja.
“Um pitoresco vale que forma o arraial ameno da Santíssima Trindade, convidava a uma romaria anual a este lugarejo toda a população da Capital. Aqui há um templo, que por ora se reduz a quatro paredes, sem altares, nem imagens, entretanto, chama-se Igreja Parochial”.
Também entre as páginas antigas do Arquivo Eclesiástico, encontra-se o documento oficial da festa em 1898. Na época, o pároco padre Francisco Xavier Topp escreveu ao Exmo. Bispo Diocesano e registrou no Livro Tombo nº 1, página 12:
“A parochia tem só a festa do Divino Espírito Santo e do padroeiro no mesmo dia.”
Este registro confirma o que a memória oral sempre soube: a Festa da Santíssima Trindade nasceu unida à Festa do Divino Espírito Santo. E o culto ao Divino Espírito Santo ocorre no período pentecostal — cinquenta dias depois da Páscoa, geralmente no final de maio ou início de junho.
Ano após ano, a comunidade revive a tradição trazida pelos açorianos no século XVIII. Eles trouxeram coroas, bandeiras, cantorias e uma fé que não precisava de templos grandiosos. No cortejo imperial, o imperador, imperatriz, pajens e damas concedem a realeza ao povo simples, como fazia a Rainha Santa Isabel em Portugal.
Chamado à missão, testemunho de quem vive a festa por dentro
Entre nós, há pessoas que carregam a festa no coração como quem carrega um evangelho vivo. Aos 77 anos, Terezinha Folle Simoni, ministra da Eucaristia e integrante do Apostolado da Oração, fala da Festa da Santíssima Trindade com a convicção de quem não apenas participa — mas pertence. Para ela, a festa nunca foi apenas tradição: é missão.
Suas memórias atravessam décadas e revelam o vínculo profundo com a comunidade. Foi nos anos 1980, ainda sob o pastoreio de Frei Alvadi Pedro Marmentini, que Terezinha iniciou sua caminhada como catequista. Desde então, sua vida espiritual e a história da festa se cruzaram como fios de um mesmo tecido.
Ela guarda com nitidez um episódio que considera decisivo em sua vida. Durante um encontro de jovens no Rio de Janeiro, ao se apresentar como membro da Paróquia Santíssima Trindade, ouviu de um bispo:
“Vocês têm tudo: Pai, Filho e Espírito Santo.”
A frase, simples e direta, caiu sobre ela como revelação.
“Ficou gravada em mim como um chamado”, recorda. “Ali, eu entendi que a nossa paróquia carrega uma força muito grande. Isso me motivou a continuar servindo sempre. A festa é fé, união e missão.”
As lembranças de infância são memórias impregnadas de cheiro de laranja. Terezinha ainda vê, como se fosse ontem, as pencas de laranja penduradas nas barracas, anunciando que a Festa da Santíssima Trindade estava próxima. A frente da igreja não tinha grades, e o movimento das pessoas transformava o adro em um cenário vivo, colorido e comunitário.
Os quintais da Trindade e do Sertão do Córrego Grande abasteciam as barracas com generosidade. Tanto que, em 1955, a festa acabou sendo conhecida como Festa da Laranja. E no auge dessa tradição, em 1974, a comissão organizadora da festa assegurou 600 mil laranjas para atender um público estimado em 50 mil pessoas — um número impressionante para a época.
Com o passar dos anos, a festa cresceu, mudou de formato, ganhou palco, som, barracas, voluntários e novas dinâmicas. Enfrentou transformações urbanas, mudanças de geração e até a pandemia — quando precisou se reinventar para continuar existindo.
Mas nunca deixou de acontecer. Porque, para Terezinha — e para tantos outros — a Festa da Santíssima Trindade não é apenas um evento. É um chamado. É um compromisso. É um modo de viver a fé que atravessa o tempo e permanece.
